O Sermão da Montanha: o Evangelho em poucas páginas
Das Bem-aventuranças ao Pai-Nosso, veja o que o Sermão da Montanha ensina segundo a Bíblia, o Catecismo e os santos, e como viver esse Evangelho no dia a dia.
O Sermão da Montanha: o Evangelho em poucas páginas
Se alguém pedisse para você explicar o cristianismo em três capítulos, por onde começaria? Muita gente responderia com o Credo, outros com os Dez Mandamentos. A tradição da Igreja aponta para um lugar que cabe na leitura de uma tarde: os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de São Mateus, o Sermão da Montanha.
Quem já tentou lê-lo sabe que ele incomoda. As palavras de Jesus ali parecem fáceis de elogiar e muito difíceis de cumprir. Talvez seja por isso que vale voltar a elas devagar.
Um mestre sentado na montanha
Mateus abre a cena com poucas palavras. Jesus vê as multidões, sobe ao monte, senta-se, e os discípulos se aproximam (Mt 5,1). Cada gesto é carregado de sentido. Na Bíblia, a montanha é o lugar onde Deus se revela, e foi num monte que Moisés recebeu a Lei. Sentar-se era a postura do mestre que ensina com autoridade. Ali está Jesus, o novo Moisés, que não recebe uma lei de Deus para entregar ao povo, mas a proclama com a própria voz.
A tradição situa o sermão numa colina perto do Mar da Galileia, onde hoje fica o Monte das Bem-aventuranças. João Paulo II celebrou Missa nesse local durante a peregrinação jubilar à Terra Santa, no ano 2000.
Santo Agostinho, que dedicou ao tema um comentário inteiro, foi direto na avaliação:
“Se alguém considerar com piedade e seriedade o sermão que o Senhor pronunciou na montanha, creio que nele encontrará a regra perfeita da vida cristã.”
Santo Agostinho, Sobre o Sermão do Senhor na Montanha, I,1
São Tomás de Aquino diz algo parecido: o Sermão contém por inteiro o que é preciso para viver como cristão (Suma Teológica, I-II, q. 108, a. 3). O Catecismo conta o Sermão da Montanha como a expressão particular da Lei nova, obra de Cristo e do Espírito Santo (CIC 1965).
As Bem-aventuranças: o rosto do cristão
O Sermão começa com uma lista que ninguém esperaria de um professor de moral. Em vez de mandar fazer, Jesus declara felizes: os pobres em espírito, os aflitos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos, os perseguidos por causa da justiça (Mt 5,3-10).
O Catecismo diz que as Bem-aventuranças estão no centro da pregação de Jesus, que elas retomam as promessas feitas a Abraão e as levam à sua plenitude, orientando-as para o Reino dos Céus (CIC 1716). Respondem ao desejo de felicidade que Deus colocou no coração humano, e ensinam que a plenitude que buscamos só se encontra nele (CIC 1718 e 1719).
O Papa Francisco, na exortação Gaudete et Exsultate, chamou as Bem-aventuranças de bilhete de identidade do cristão (GE 63). A imagem ajuda. Se alguém pergunta como é um cristão de verdade, a resposta está ali: alguém que não se agarra ao que tem, que consegue chorar com os outros, que escolhe a mansidão, que tem sede de justiça, que perdoa, que olha com limpeza, que trabalha pela paz.
Vale notar a ordem. As Bem-aventuranças vêm antes das exigências que o Sermão traz em seguida. Primeiro Jesus mostra quem somos chamados a ser, depois diz o que isso pede na prática.
Sal e luz
Logo depois vêm duas imagens que todo católico conhece de cor. “Vós sois o sal da terra” e “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-14). Sal e luz têm algo em comum, que é existir para os outros. O sal tempera o que não é ele. A luz ilumina o que está à sua volta.
Jesus acrescenta que não se acende uma lâmpada para escondê-la debaixo de um cesto, e que as boas obras dos discípulos devem brilhar de modo que os outros glorifiquem o Pai (Mt 5,15-16). A vida cristã tem um lado público, que não precisa ser barulhento, mas precisa ser visível.
Não vim abolir, mas dar pleno cumprimento
Em seguida, Jesus esclarece uma dúvida que provavelmente já passava pela cabeça dos ouvintes: ele não veio abolir a Lei nem os Profetas, mas levá-los à plenitude (Mt 5,17). O Catecismo explica que o Sermão da Montanha, longe de anular as prescrições da antiga Lei, extrai delas virtualidades ocultas e faz surgir exigências novas. Não acrescenta preceitos exteriores, mas chega à raiz dos atos, que é o coração (CIC 1968).
É o que se vê nas chamadas antíteses, aquela sequência de “ouvistes que foi dito aos antigos... Eu, porém, vos digo”. Jesus pega os mandamentos que todos conheciam e vai mais fundo.
Sobre a ira. Não basta não matar. É preciso cuidar do ressentimento, do desprezo, da palavra que humilha (Mt 5,21-26). O Catecismo ensina que a ira e o ódio, quando voluntários e consentidos, já ferem o quinto mandamento (CIC 2302 e 2303).
Sobre a pureza. O olhar também conta (Mt 5,27-30). O Catecismo ensina que a pureza do coração é condição para ver a Deus, e que ela pede esforço, domínio de si e oração (CIC 2517 a 2519).
Sobre a palavra. Que o vosso sim seja sim, e o vosso não seja não (Mt 5,37). A verdade dita com simplicidade dispensa juramentos.
Sobre os inimigos. O ponto mais radical: “Amai os vossos inimigos e rezai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44). O Catecismo afirma que esse amor, que vem de Cristo, é possível pela graça, e que rezar pelos inimigos é a forma mais concreta de vivê-lo (CIC 1825 e 2844).
Rezar, jejuar, dar esmola, em segredo
O capítulo 6 muda de assunto sem mudar de lição. Jesus trata de três práticas que todo judeu piedoso conhecia, a esmola, a oração e o jejum, e diz a mesma coisa sobre as três: faça-as diante do Pai, e não diante das pessoas (Mt 6,1-18). O Pai que vê o que está oculto recompensará.
É nesse trecho que Jesus ensina o Pai-Nosso (Mt 6,9-13). Tertuliano, nos primeiros séculos, chamou essa oração de resumo de todo o Evangelho, e o Catecismo recolhe a frase (CIC 2761). São Tomás acrescenta que é a mais perfeita das orações (CIC 2763).
Não andeis ansiosos
Quem tem preocupação demais pelo dia de amanhã deveria ler o final do capítulo 6 com calma. Jesus manda olhar as aves do céu e os lírios do campo e pergunta quem, à força de se afligir, consegue acrescentar um instante à própria vida (Mt 6,25-34). Termina com um conselho que vale para qualquer época: buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e o resto vos será dado por acréscimo.
O Catecismo lê essa passagem como um convite ao abandono filial à Providência do Pai (CIC 305). Não é um convite à preguiça. Quem confia continua trabalhando, mas sem a angústia de quem pensa que tudo depende só dele.
Não julgueis, e a porta estreita
O capítulo 7 reúne ensinamentos curtos e certeiros. “Não julgueis, para não serdes julgados” (Mt 7,1). O Catecismo trata do juízo temerário como pecado contra a verdade e o respeito ao próximo, e pede que se interprete sempre no melhor sentido o pensamento e a ação do outro (CIC 2477 e 2478). Vem depois a imagem do cisco no olho do irmão e da trave no próprio (Mt 7,3-5), que ninguém precisa explicar.
Segue-se a Regra de Ouro: tudo o que quereis que os outros vos façam, fazei-o também a eles (Mt 7,12). O Catecismo a menciona como norma que orienta o discernimento moral (CIC 1789). Depois vêm a porta estreita (Mt 7,13-14), que o Catecismo lembra ao falar da necessidade de buscar a salvação com esforço (CIC 1036), e o aviso sobre os falsos profetas, que se reconhecem pelos frutos (Mt 7,15-20).
A casa sobre a rocha
O Sermão termina com uma parábola. Quem ouve estas palavras e as pratica é como o homem prudente que construiu a casa sobre a rocha. Veio a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos, e a casa não caiu. Quem ouve e não pratica constrói sobre a areia, e a queda é grande (Mt 7,24-27).
É a pergunta final do Sermão da Montanha, dirigida a cada um: o que você faz com o que ouviu?
Como viver o Sermão da Montanha hoje
Seria desonesto dizer que dá para cumprir tudo isso por força de vontade. Os próprios santos nunca disseram isso. O Catecismo lembra que a Lei nova é, antes de tudo, a graça do Espírito Santo dada pela fé em Cristo (CIC 1966). O Sermão não é um regulamento que se obedece com os dentes cerrados. É uma vida que se recebe e que vai se formando em nós, com a Eucaristia, a Confissão e a oração.
Para começar, vale pegar um pedacinho de cada vez. Nesta semana, por exemplo, escolher uma Bem-aventurança e perguntar a si mesmo onde ela falta na própria vida. Ou escolher uma pessoa difícil e rezar por ela todos os dias. Ou cumprir uma obra de caridade sem que ninguém saiba.
Quem faz isso por algumas semanas começa a perceber que a casa está ganhando fundação.
Fontes sugeridas:
- Catecismo da Igreja Católica, nn. 1716 a 1729 (as Bem-aventuranças), nn. 1965 a 1974 (a Lei evangélica) e nn. 2759 a 2865 (o Pai-Nosso)
- Santo Agostinho, Sobre o Sermão do Senhor na Montanha
- Papa Francisco, exortação apostólica Gaudete et Exsultate, capítulo 3
- Bento XVI, Jesus de Nazaré, volume 1, capítulo 4 (a mensagem das Bem-aventuranças e o Sermão da Montanha)
- São Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, questão 108
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