O valor do silêncio na vida de oração

“Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Sl 46,11). Veja o que a Bíblia e o Catecismo ensinam sobre o silêncio na oração e como abrir espaço para ele na rotina.

S&A Por: Silvaneide e Alan · 5 de setembro · 4 min de leitura
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O valor do silêncio na vida de oração

O Valor do Silêncio na Vida de Oração

Pense na última vez em que você ficou cinco minutos seguidos sem tela, sem música, sem conversa e sem lista de tarefas. Para muita gente, a resposta demora. Acordamos já com o celular na mão, trabalhamos entre notificações, voltamos para casa com a televisão ligada. Quando finalmente nos ajoelhamos para rezar, o barulho vem junto. A cabeça continua falando, e a oração vira mais uma fala nossa.

A tradição da Igreja sempre insistiu num ponto que a vida moderna dificulta: para ouvir Deus, é preciso silêncio.

Deus fala baixo

Existe uma cena no Primeiro Livro dos Reis que ensina isso melhor do que qualquer explicação. O profeta Elias está fugindo, cansado e com medo, e recebe a ordem de ficar na montanha à espera do Senhor. Passa um vento forte que quebra as rochas, mas Deus não estava no vento. Vem um terremoto, e Deus não estava nele. Vem um fogo, e também não. Só depois do fogo vem o murmúrio de uma brisa suave, e então Elias cobre o rosto com o manto, porque ali estava o Senhor (1Rs 19,11-13).

Deus tem o poder do vento, do terremoto e do fogo, e escolheu se mostrar numa brisa leve. Quem vive no estrondo não percebe.

O salmista dá o mesmo conselho de outro jeito: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Sl 46,11). E em outro salmo reza: “Só em Deus repousa a minha alma” (Sl 62,2). O profeta Isaías resume: na calma e na confiança está a vossa força (Is 30,15).

“Precisamos encontrar Deus, e ele não pode ser encontrado no barulho e na agitação. Deus é amigo do silêncio. Veja como a natureza, as árvores, as flores, a relva, crescem em silêncio.”

Santa Teresa de Calcutá

O próprio Jesus buscava o silêncio

Os Evangelhos mostram Jesus indo atrás do que nós temos tanta dificuldade de encontrar. Marcos conta que, de madrugada, quando ainda estava escuro, ele saiu e foi a um lugar deserto para rezar (Mc 1,35). Lucas diz que ele costumava se retirar para lugares isolados e orar (Lc 5,16). Antes de escolher os Doze, passou a noite inteira em oração (Lc 6,12). E quando ensina a rezar, não manda procurar o palco, e sim o quarto: “Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo” (Mt 6,6).

O Catecismo da Igreja Católica observa que Jesus reza nos momentos decisivos da sua missão, e que o seu exemplo é a escola da nossa oração (CIC 2600 a 2606). Se o Filho de Deus precisava de silêncio para falar com o Pai, nós também precisamos.

Maria, a mestra do coração silencioso

Quem melhor soube guardar silêncio foi Nossa Senhora. São Lucas diz duas vezes que Maria conservava todas essas coisas e as meditava no seu coração (Lc 2,19 e 2,51). Diante do anjo, dos pastores, dos magos, da profecia de Simeão, ela não comenta, não explica, não reclama. Guarda. A palavra recebida cresce por dentro.

A cena de Marta e Maria, em Lucas 10, aponta na mesma direção. Marta se agita com muitas coisas, e o Senhor, com carinho, lhe diz que uma só é necessária. Maria, sentada aos pés dele, escolheu a melhor parte (Lc 10,38-42). Jesus não está condenando o serviço de Marta. Está lembrando que o serviço perde o rumo quando não nasce da escuta.

O que o Catecismo ensina

Ao falar da oração contemplativa, o Catecismo diz que ela é silêncio, “símbolo do mundo vindouro” (CIC 2717). Nesse silêncio, as palavras deixam de ser discursos e passam a ser como brasas que alimentam o fogo do amor.

O Catecismo cita a definição de Santa Teresa de Ávila para a oração mental: tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama (CIC 2709). Amizade de verdade não vive só de conversa. Duas pessoas que se amam sabem ficar juntas calando.

Há também a história do camponês de Ars, que passava horas diante do Sacrário, e quando o Santo Cura lhe perguntou o que fazia ali, respondeu simplesmente: “Eu o olho, e ele me olha” (CIC 2715). Não havia fórmula nem método. Era presença.

Os santos disseram o mesmo de formas diferentes. Santo Agostinho, depois de anos de agitação, escreveu que o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Deus (Confissões, I,1). São João da Cruz ensinou que o Pai pronunciou uma única Palavra, o seu Filho, e que essa Palavra deve ser ouvida em silêncio.

O silêncio também mora na Missa

Muita gente pensa que a Missa é feita só de palavras e cantos. Mas a Igreja pede o silêncio sagrado na própria liturgia. O Concílio Vaticano II diz que, no tempo oportuno, se guarde o silêncio sagrado (Sacrosanctum Concilium, 30). O Missal Romano indica onde: no ato penitencial, depois do convite à oração, depois das leituras e da homilia, e especialmente depois da Comunhão (Instrução Geral do Missal Romano, 45).

Aqueles minutinhos depois de receber a Eucaristia são talvez os mais preciosos da semana. Jesus está dentro de nós, de forma real, e é justamente a hora em que muita gente já está olhando o relógio, guardando o livreto ou pensando no almoço. Um jeito simples de mudar a própria Missa é ficar quieto ali, sem pedir nada, só ficar.

E as distrações?

Ninguém começa a rezar em silêncio e encontra paz. Começa encontrando a própria bagunça mental: a conta para pagar, a mensagem que faltou responder, a conversa de ontem. O Catecismo é realista, e diz que a dificuldade habitual da oração é a distração (CIC 2729). Também diz que o remédio é a humildade e a vigilância do coração, e que a distração revela àquele que reza aquilo a que ele de fato se apega (CIC 2729 e 2731).

Tem alívio nisso. Distrair-se não estraga a oração. O que conta é voltar, uma vez, duas, dez vezes, com paciência, como quem reconduz uma criança pela mão.

Como começar, sem complicar

Vale começar pequeno, porque quem se propõe uma hora acaba desistindo na primeira semana.

  1. Escolha cinco minutos, no mesmo horário e no mesmo lugar, de preferência de manhã.
  2. Deixe o celular em outro cômodo. Se não der, deixe virado para baixo e no silencioso.
  3. Abra a Bíblia num trecho curto, leia devagar uma vez e fique com uma frase só.
  4. Repita o nome de Jesus ou uma frase curta, como “Senhor, eu confio em ti”, sempre que a cabeça se dispersar.
  5. Termine com um Pai-Nosso ou uma Ave-Maria.

Quem puder, pode passar uns minutos diante do Santíssimo Sacramento numa capela de adoração. Muita paróquia mantém a capela aberta, e o silêncio lá dentro tem uma qualidade própria.

Mais do que uma técnica

O silêncio na oração não é método de relaxamento nem fuga do mundo. Para a Igreja, é o lugar do encontro. Não se trata de esvaziar a mente até sobrar nada, como em práticas de outras tradições. Trata-se de abrir espaço para uma Pessoa, que já está ali e que nos ama.

E é um silêncio que devolve ao mundo mais disposto para amar. Quem se deixa tocar por Deus no silêncio sai dele com mais paciência em casa, mais atenção no trabalho e mais palavras certas na hora de falar. O barulho do dia continua, mas já não manda em nós. Como diz o salmo: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus.”

Fontes sugeridas:

  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 2559 a 2565 (o que é a oração), nn. 2709 a 2719 (a oração mental e a contemplação) e nn. 2729 a 2733 (as dificuldades da oração)
  • Concílio Vaticano II, constituição Sacrosanctum Concilium, n. 30
  • Instrução Geral do Missal Romano, n. 45
  • Santa Teresa de Ávila, Livro da Vida, cap. 8
  • Santo Agostinho, Confissões, livro I

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