Liturgia das Horas: santificando o tempo

Orai sem cessar” (1Ts 5,17). Conheça a Liturgia das Horas, a oração oficial da Igreja que acompanha o dia inteiro, e veja como qualquer pessoa pode começar a rezá-la.

S&A Por: Silvaneide e Alan · 3 de setembro · 6 min de leitura
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Liturgia das Horas: santificando o tempo

Todo mundo sabe como o dia passa depressa. Acordamos, corremos para o trabalho, resolvemos problemas, voltamos para casa e, quando percebemos, já é noite e não sobrou um minuto para Deus. A oração vira o que “dá tempo”. Foi justamente para enfrentar esse problema que a Igreja guarda, desde os primeiros séculos, uma oração que acompanha as horas do dia: a Liturgia das Horas.

Rezar o dia inteiro

Jesus disse que é preciso “orar sempre, sem desanimar” (Lc 18,1), e São Paulo repete aos tessalonicenses: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17). Qualquer pessoa que trabalha, cuida de filhos ou de casa percebe logo o desafio. Como rezar sem parar?

A resposta da Igreja não foi criar uma regra impossível. Foi organizar a oração em momentos, para que o dia inteiro ficasse, de algum modo, dentro da prece. Já os judeus rezavam em horas determinadas. O salmista diz: “Sete vezes ao dia eu te louvo” (Sl 119,164). O profeta Daniel rezava três vezes ao dia, voltado para Jerusalém (Dn 6,11). E os primeiros cristãos, que eram judeus, continuaram com esse costume. No livro dos Atos, Pedro e João sobem ao Templo “à hora da oração, a nona” (At 3,1), Pedro reza no terraço por volta do meio-dia (At 10,9), e Paulo e Silas cantam hinos a Deus na prisão, à meia-noite (At 16,25).

Como isso nasceu

Os escritos cristãos mais antigos já mostram essa prática. A Didaqué, um texto do fim do século I, manda rezar o Pai-Nosso três vezes ao dia. Tertuliano e São Cipriano, nos séculos II e III, falam das horas de terça, sexta e nona, ligando cada uma delas a um momento da vida de Cristo e dos Apóstolos: o Espírito Santo descendo sobre eles, a crucifixão, a morte do Senhor.

Com o tempo, os mosteiros deram forma a essa oração. São Bento, no século VI, escreveu em sua Regra que nada se deve preferir à “Obra de Deus”, que era o nome que os monges davam ao Ofício rezado em coro. De lá a prática se espalhou pelas catedrais, pelas paróquias e pelo clero, e foi se organizando no que hoje conhecemos como breviário.

O que é a Liturgia das Horas

O Catecismo da Igreja Católica explica que o mistério de Cristo, a sua encarnação e a sua Páscoa, que celebramos na Eucaristia, penetra e transforma o tempo de cada dia através da Liturgia das Horas (CIC 1174). Ela funciona como um prolongamento da Missa, que leva para dentro das horas comuns aquilo que o altar nos dá.

O Catecismo diz também que essa oração é a voz da própria Igreja falando ao seu Esposo, e que é a oração de Cristo com o seu Corpo, dirigida ao Pai (CIC 1174 e 1175). Quando alguém reza as Horas, não está rezando sozinho. Une a sua voz à de toda a Igreja, em todos os cantos do mundo, que naquele mesmo momento reza os mesmos salmos. Um leigo no interior de Minas, uma monja em clausura na Europa e um bispo em Roma estão, naquela hora, no mesmo coro.

O Concílio Vaticano II explica o sentido dessa oração na constituição Sacrosanctum Concilium. O Sumo Sacerdote, Cristo, ao assumir a nossa natureza, trouxe para a terra o hino de louvor que se canta eternamente no céu, e une a si toda a humanidade para cantá-lo com ele (SC 83). E as Horas foram pensadas para que todo o curso do dia e da noite seja santificado pelo louvor de Deus (SC 84).

As horas do dia

A Liturgia das Horas se divide em momentos distintos, cada um com seu clima.

Ofício das Leituras. Pode ser rezado em qualquer hora do dia. Traz salmos, uma leitura longa da Escritura e uma leitura dos Padres da Igreja ou de outros escritores cristãos. É a hora mais meditativa.

Laudes, a oração da manhã. Entrega o dia a Deus, lembrando a ressurreição de Cristo, que é a luz que chega com o amanhecer.

Hora Média. Três pequenas pausas durante o dia, a Terça, a Sexta e a Noa, curtas o bastante para caber no meio de um expediente.

Vésperas, a oração da tarde. Agradece pelo dia que passou. Costuma incluir o Magnificat, o cântico de Nossa Senhora.

Completas, a oração antes de dormir. Faz um breve exame do dia, pede o perdão e entrega a noite nas mãos de Deus. Termina com uma antífona a Nossa Senhora.

Segundo o Concílio, Laudes e Vésperas são as duas horas principais, os “eixos” em torno dos quais gira todo o Ofício (SC 89). Quem tem pouco tempo e quer começar com o essencial pode se concentrar nessas duas.

Os salmos, o coração da oração

A base dessa oração é o Livro dos Salmos, que a Liturgia das Horas distribui ao longo de quatro semanas. Os salmos foram rezados pelo próprio Jesus, que os cantou com os Apóstolos e os repetiu na cruz. Neles cabe tudo o que sentimos: alegria, medo, cansaço, raiva, saudade, gratidão. Quando você não sabe o que dizer a Deus, os salmos já dizem por você.

O Catecismo lembra que, ao rezar os salmos, a Igreja ora com o Cristo todo, cabeça e membros, e que a Escritura proclamada nas Horas é recebida como Palavra viva (CIC 1177). A Igreja sempre ensinou que a oração com a Bíblia é um diálogo, em que Deus fala e nós respondemos.

Para quem é?

Muita gente pensa que o breviário é coisa só de padre e freira. Padres, diáconos e religiosos têm, de fato, o dever de rezar as Horas. Mas a Igreja é clara em dizer que essa oração pertence a todo o povo de Deus. O Concílio pede que os pastores incentivem os fiéis a rezarem as Vésperas nos domingos e festas, e que também os leigos rezem o Ofício, sozinhos ou em família (SC 100). O Catecismo diz que cada um participa segundo o seu lugar na Igreja e as circunstâncias da sua vida (CIC 1175).

Em português, a Liturgia das Horas é publicada em quatro volumes, e também há versões abreviadas, como o “Ofício Divino das Comunidades”, pensadas para os leigos. Hoje existem ainda aplicativos e sites que trazem o texto do dia, com todas as partes já montadas, o que facilita muito para quem está começando.

Como começar sem se perder

Quem abre o breviário pela primeira vez costuma se assustar com tantas marcações, ritos e páginas para folhear. Aqui vão algumas ideias para não desistir logo no começo:

  1. Comece só com Laudes ou Vésperas, uma vez por dia.
  2. Reze com calma. Ninguém está cronometrando.
  3. Se perder o horário, reze quando puder. Ninguém vai te cobrar o relógio.
  4. Procure alguém, na paróquia ou na família, que queira rezar junto. A oração ganha força quando é compartilhada.
  5. Insista por algumas semanas. No começo parece difícil, mas os movimentos se tornam familiares e passam a trazer paz.

O Catecismo lembra ainda que a Liturgia das Horas não exclui as devoções do povo, como o terço e o Angelus, mas as completa e as alimenta (CIC 1178). Quem já reza o terço não precisa largá-lo. As Horas se somam à vida de oração que a pessoa já tem.

Santificar o tempo é santificar a vida

No fim das contas, a Liturgia das Horas não serve para encher a agenda de obrigações. Ela serve para lembrar que o tempo pertence a Deus. Cada manhã, cada tarde e cada noite se tornam, aos poucos, momentos de encontro com ele, e não apenas intervalos entre tarefas.

Quem reza as Horas aprende a ver o dia de outro jeito. O trabalho deixa de ser apenas trabalho. O cansaço do fim da tarde ganha um lugar para onde ir. E o silêncio da noite, que antes era só silêncio, passa a ser oração. Santificar o tempo é isso: deixar que Cristo habite as nossas horas, uma a uma.

Fontes sugeridas:

  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 1174 a 1178
  • Concílio Vaticano II, constituição Sacrosanctum Concilium, nn. 83 a 101
  • Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, que abre cada edição do breviário
  • Paulo VI, constituição apostólica Laudis Canticum (1970), que promulgou a Liturgia das Horas renovada

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