Uma Só Igreja Visível: Por Que Existem Tantas Denominações?

'Que todos sejam um, para que o mundo creia' (Jo 17,21). A divisão é ferida, não projeto de Cristo. Veja por que a Igreja una e visível é sinal de contradição e de verdade.

S&A Por: Silvaneide e Alan · 11 de outubro · 6 min de leitura
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Uma Só Igreja Visível: Por Que Existem Tantas Denominações?

Uma Só Igreja Visível

Quem já foi a uma cidade média brasileira sabe como é. Em uma única rua você encontra uma igreja católica, duas ou três evangélicas de nomes diferentes, uma outra que nasceu no ano passado numa garagem. Todas dizem seguir Jesus. Todas abrem a Bíblia. E, ainda assim, ensinam coisas diferentes sobre o batismo, a salvação, a Eucaristia, a autoridade. A pergunta surge sozinha: se Cristo é um só, por que existem tantas igrejas?

O que Jesus pediu

Na noite anterior à sua Paixão, Jesus rezou ao Pai por quem viria depois dele: “Que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em mim e eu em Ti, para que o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo 17,21). Repare no motivo do pedido. A unidade dos cristãos não é um detalhe de organização. É o sinal que deveria levar o mundo a acreditar.

Ele falou também de um só rebanho e um só pastor (Jo 10,16), e disse a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). Note o singular. Minha Igreja, não minhas igrejas. São Paulo repete a mesma ideia aos cristãos de Corinto, que já se dividiam em grupos: “Está Cristo dividido?” (1Cor 1,13). E, escrevendo aos efésios, lembra que há um só corpo, um só Senhor, uma só fé, um só batismo (Ef 4,4 a 6).

Uma Igreja que se pode ver

Muita gente imagina a Igreja como uma realidade apenas espiritual, uma união invisível entre todos os que amam a Jesus, não importa onde rezem. É uma ideia bonita, mas não é a que aparece no Evangelho. Jesus fundou uma comunidade concreta, com Apóstolos escolhidos por nome, com uma missão, com autoridade para ensinar e perdoar pecados. Quando surge uma disputa, ele manda: “dize-o à Igreja” (Mt 18,17). Só faz sentido recorrer a algo que pode ser encontrado.

São Paulo chama a Igreja de “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15). O Catecismo da Igreja Católica ensina que a Igreja é, ao mesmo tempo, comunidade visível e realidade espiritual, e que essas duas dimensões não se separam (CIC 771). Já no início do século II, Santo Inácio de Antioquia, discípulo dos Apóstolos, escrevia que onde está o bispo, ali está a comunidade, do mesmo modo que onde está Cristo Jesus, ali está a Igreja Católica. Foi a primeira vez que a palavra “católica” apareceu para descrever a Igreja, e já pressupunha uma realidade visível, com pastores reconhecíveis.

“Onde estiver o bispo, ali esteja a comunidade, assim como onde está Cristo Jesus, ali está a Igreja Católica.”
— Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses, 8

De onde vem a fragmentação

A divisão entre cristãos não é novidade do nosso tempo. Já nos primeiros séculos surgiram heresias e cismas. A grande separação entre Oriente e Ocidente aconteceu em 1054. No século XVI, a Reforma Protestante rompeu a unidade no Ocidente, e dali em diante o processo se acelerou.

A raiz está numa pergunta simples: quem decide o que a Bíblia realmente quer dizer? Quando se abandona a ideia de uma autoridade visível, dada por Cristo para guardar e interpretar a fé, cada comunidade e cada pessoa fica com a última palavra sobre o texto. O resultado era previsível. Pessoas sinceras leem a mesma Escritura e chegam a conclusões opostas, até sobre pontos essenciais como o batismo, a Eucaristia e o perdão dos pecados. Quando duas leituras se contradizem, ao menos uma delas está errada. E sem alguém com autoridade para decidir, a única saída que sobra é a separação, que se repete a cada novo desacordo.

Por isso o Catecismo lembra que a Escritura não foi entregue para ser interpretada sem ponto de apoio. O Cristo ensinou os Apóstolos, os Apóstolos transmitiram a fé, e essa transmissão viva é a Tradição (CIC 77 e 78). O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus foi confiado somente ao Magistério da Igreja, isto é, ao Papa e aos bispos em comunhão com ele (CIC 85). A Igreja não está acima da Palavra de Deus, mas a serve, ensinando só o que foi transmitido (CIC 86).

O que a Igreja Católica diz sobre si mesma

Aqui vale ser claro e honesto. A Igreja Católica professa, no Credo, crer na Igreja una, santa, católica e apostólica (CIC 811). Ela ensina que a única Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele (CIC 816). Os laços dessa unidade são a profissão de uma só fé recebida dos Apóstolos, a celebração comum do culto, sobretudo dos sacramentos, e a sucessão apostólica, que se transmite pelo sacramento da Ordem (CIC 815).

Quando dizemos “subsiste”, não estamos dizendo que fora dela não exista nada de bom. Está dito com clareza no próprio Catecismo.

Sem arrogância e sem indiferença

Existe uma tentação para quem defende a Igreja Católica: tratar os irmãos separados com dureza. O Catecismo manda o caminho contrário. Reconhece que, em relação às divisões, houve culpa “muitas vezes de um lado e do outro” (CIC 817). Diz que quem nasce hoje em comunidades separadas e é educado na fé em Cristo não pode ser acusado do pecado da separação, e que a Igreja os abraça com respeito e amor fraternos (CIC 818).

O texto vai além: muitos elementos de santificação e de verdade existem fora dos limites visíveis da Igreja Católica, como a Palavra de Deus escrita, a vida da graça, a fé, a esperança, a caridade e outros dons do Espírito Santo (CIC 819). Quem foi validamente batizado já está, por esse batismo, em certa comunhão, ainda que imperfeita, com a Igreja Católica (CIC 838).

Existe também a outra tentação, a do “tanto faz”. Se todas as igrejas são iguais, então Jesus rezou à toa em Jo 17. O Concílio Vaticano II recusou esse caminho. O decreto Unitatis Redintegratio afirma que a divisão contradiz abertamente a vontade de Cristo e é escândalo para o mundo, prejudicando a pregação do Evangelho a toda criatura (UR 1). O ecumenismo católico não pretende dissolver as diferenças. Ele busca a unidade que Cristo quis, na verdade inteira e na caridade.

Então, o que fazer?

O Catecismo é franco: a unidade é um dom que Cristo deu à sua Igreja e que ela jamais perdeu, mas precisa ser buscada, guardada e fortalecida sempre (CIC 820). Isso pede conversão do coração, vida santa, oração em comum e estudo. Pede também que o católico conheça a própria fé, para poder explicá-la com mansidão a quem pergunta, como orienta São Pedro (1Pd 3,15).

Em casa, no trabalho, na família, haverá sempre alguém de outra denominação com quem conversar. Vale conversar com respeito, sem ironia e sem medo, e ouvir antes de responder. Muitos que hoje estão fora da Igreja procuram, sem saber, justamente o que ela guarda há dois mil anos: uma fé que não nasceu ontem, que vem dos Apóstolos e que chega até nós inteira.

A pergunta “por que tantas denominações?” não tem resposta simples, mas tem uma direção clara. Jesus quis uma só Igreja, visível, edificada sobre Pedro e os Apóstolos. A divisão é ferida, e o caminho de cura passa pela verdade e pelo amor, nunca por um sem o outro.

Fontes sugeridas:

  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 811 a 822 (a Igreja una) e nn. 85 a 87 (o Magistério)
  • Concílio Vaticano II, decreto Unitatis Redintegratio sobre o ecumenismo
  • Concílio Vaticano II, constituição Lumen Gentium, n. 8
  • Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses, n. 8

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