Quem Escolheu os Livros da Bíblia?A Verdade Sobre o Cânon

Muitos repetem 'só a Bíblia', mas alguém precisou decidir quais livros pertencem à Bíblia. Essa resposta aponta direto para a autoridade que Cristo fundou.

S&A Por: Alan · 8 de setembro · 6 min de leitura
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Quem Escolheu os Livros da Bíblia?A Verdade Sobre o Cânon

Uma pergunta que a Bíblia não responde sozinha

Você já parou para pensar quem decidiu quais livros fazem parte da Bíblia? Ela não vem com um índice escrito por Deus dizendo “estes são os livros inspirados”. Nenhum livro bíblico traz a lista completa dos outros. Então, quem fez essa escolha, quando e com que autoridade?

A resposta da fé católica é simples: a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, reconheceu quais escritos eram a Palavra de Deus. Repare no verbo: a Igreja não criou a Bíblia nem deu inspiração aos livros. Ela reconheceu o que já era inspirado, como um joalheiro reconhece quais pedras são autênticas.

O Catecismo ensina que foi pela Tradição apostólica que a Igreja discerniu quais escritos devem ser incluídos na lista dos livros sagrados, e essa lista completa se chama cânon (CIC 120). A palavra vem do grego e significa “regra” ou “medida”.

Como o Antigo Testamento chegou até Jesus

Os primeiros cristãos eram quase todos judeus, e as Escrituras que eles liam eram as do povo de Israel. Jesus mesmo fala da “Lei de Moisés, dos Profetas e dos Salmos” (Lucas 24,44), uma forma de se referir ao conjunto das Escrituras judaicas.

Naquele tempo, boa parte dos judeus espalhados pelo mundo lia a Bíblia em grego, numa tradução chamada Septuaginta, feita em Alexandria, no Egito, a partir do século III antes de Cristo. Ela incluía alguns livros que não estavam na lista usada na Palestina. Os apóstolos e os primeiros cristãos usavam muito essa tradução: boa parte das citações do Antigo Testamento no Novo segue a Septuaginta.

Os judeus definiram sua lista de forma mais clara nos séculos seguintes, depois da destruição do Templo, no ano 70. Mas a essa altura a Igreja já existia, já lia a Septuaginta e já tinha recebido de Cristo a missão de ensinar.

Como foi formado o Novo Testamento

Os livros do Novo Testamento foram escritos ao longo de várias décadas, depois da Ressurreição, por apóstolos e por pessoas próximas deles. Eles não saíram juntos, nem foram escritos para formar um livro único. Eram cartas enviadas a comunidades e Evangelhos escritos para ajudar na pregação.

Esses escritos já eram respeitados desde cedo. O próprio Novo Testamento mostra isso. São Pedro fala das cartas de Paulo e as coloca ao lado “das outras Escrituras” (2 Pedro 3,15-16). E São Paulo cita uma frase do Evangelho de Lucas como Escritura (1 Timóteo 5,18, que cita Lucas 10,7).

Com o tempo, as comunidades passaram a ler esses livros na Missa, junto com o Antigo Testamento. Santo Ireneu de Lyon, por volta do ano 180, já defendia que os Evangelhos são quatro, nem mais nem menos (Contra as Heresias, III, 11, 8). Uma lista antiga conhecida como Fragmento Muratoriano, dos séculos II ou III, já traz boa parte dos livros do Novo Testamento.

O que levou a Igreja a fazer a lista

Havia um motivo prático: o surgimento de escritos falsos e de doutrinas erradas. Por volta do ano 140, um homem chamado Marcião quis uma Bíblia reduzida, sem o Antigo Testamento e só com um Evangelho e algumas cartas de Paulo, bem editados. Além disso, surgiram textos que se diziam apostólicos, como o “Evangelho de Tomé” e o “Evangelho de Judas”, escritos muito depois dos apóstolos e com doutrinas estranhas à fé que a Igreja recebera.

A Igreja precisava discernir. E usou, de modo geral, três critérios:

  • Origem apostólica: o livro vinha de um apóstolo ou de alguém ligado a ele?
  • Fidelidade à fé: o ensino concordava com o que a Igreja sempre cria e ensinava?
  • Uso nas Igrejas: o livro era lido na liturgia em toda parte, desde cedo?

Eusébio de Cesareia, no século IV, descreve esse processo, separando os livros aceitos por todos dos livros discutidos e dos rejeitados (História Eclesiástica, III, 25).

Quem decidiu: a Igreja guiada pelo Espírito Santo

Em 367, Santo Atanásio, bispo de Alexandria, enviou a sua carta pascal anual com a lista exata dos 27 livros do Novo Testamento, os mesmos que temos hoje (Carta Festal 39). Depois vieram os grandes sínodos: Hipona (393) e Cartago (397 e 419) confirmaram a lista completa, com 46 livros do Antigo Testamento e 27 do Novo. O papa Inocêncio I fez o mesmo numa carta ao bispo de Toulouse, em 405.

Alguém pode perguntar: “Mas não foi a Igreja que decidiu? Então a Bíblia depende da Igreja?” Santo Agostinho, no século IV, falou disso com franqueza:

“Eu não creria no Evangelho se a autoridade da Igreja Católica não me movesse a isso.” (Santo Agostinho, Contra a Carta de Mani chamada Fundamental, 5, 6)

Isso não significa que a Igreja esteja “acima” da Palavra de Deus. O Concílio Vaticano II explica que o Magistério não está acima da Palavra, mas a serve, ensinando só o que foi transmitido (Dei Verbum, 10). Os livros são inspirados por Deus, e a Igreja foi o instrumento pelo qual os cristãos souberam quais eram. Jesus havia prometido que o Espírito Santo guiaria os apóstolos “à verdade toda” (João 16,13), e a Bíblia chama a Igreja de “coluna e sustentáculo da verdade” (1 Timóteo 3,15).

Por que a Bíblia católica tem 73 livros?

A Bíblia católica tem 73 livros (46 no Antigo Testamento e 27 no Novo). As Bíblias protestantes costumam ter 66. A diferença está em sete livros do Antigo Testamento: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruc e 1 e 2 Macabeus, além de trechos de Ester e Daniel. Esses livros são chamados deuterocanônicos (“de segundo cânon”), porque entraram depois na lista usada pelos judeus de língua hebraica, mas já estavam na Septuaginta e foram usados pelos primeiros cristãos.

Os cristãos nunca deixaram de ler esses livros. Eles aparecem nas listas dos sínodos de Hipona e Cartago e em escritos de Padres da Igreja. Só no século XVI, com a Reforma Protestante, é que Martinho Lutero os retirou do Antigo Testamento e os colocou à parte, no final da sua tradução. Ele também chegou a duvidar de livros como Tiago, Hebreus, Judas e Apocalipse, mas esses permaneceram nas Bíblias protestantes.

Em resposta, o Concílio de Trento, em 1546, declarou de modo solene a lista completa dos 73 livros, que a Igreja já usava havia mais de mil anos (Sessão IV).

Perguntas e dúvidas comuns

“A Igreja não inventou a Bíblia?” Não. Os livros foram escritos por autores humanos inspirados por Deus, em épocas diferentes. A Igreja não os inventou, mas os recebeu, guardou e reconheceu. O Concílio Vaticano II ensina que Deus é o autor dos livros sagrados, que foram escritos por homens verdadeiros, sob a inspiração do Espírito Santo (Dei Verbum, 11).

“Se só a Bíblia basta, como saber quais livros são a Bíblia?” Essa é uma pergunta difícil para quem acredita só na Bíblia. Como nenhum livro traz a lista de todos os outros, a lista veio de fora, da Tradição viva da Igreja. O Catecismo ensina que a Igreja não tira sua certeza só das Escrituras: Bíblia e Tradição devem ser recebidas com igual respeito (CIC 82). O próprio São Paulo manda guardar as tradições recebidas, “seja por palavra, seja por carta nossa” (2 Tessalonicenses 2,15). E o Evangelho de João lembra que Jesus fez muitas outras coisas que não foram escritas (João 21,25).

“Os livros deuterocanônicos são mesmo Escritura?” A Igreja Católica ensina que sim, e os usa na liturgia desde os primeiros séculos. O Novo Testamento até parece aludir a eles: Hebreus 11,35 fala de mulheres que receberam seus mortos de volta e de outros que preferiram ser torturados, em referência ao martírio dos irmãos do capítulo 7 de 2 Macabeus.

“O Concílio de Niceia decidiu a lista dos livros?” Não. É uma ideia muito repetida, mas não corresponde aos fatos. O Concílio de Niceia (325) tratou principalmente da divindade de Cristo. A lista foi sendo confirmada aos poucos, em cartas e sínodos, entre os séculos IV e V.

Bíblia e Tradição caminham juntas

O Concílio Vaticano II explica que a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura saem da mesma fonte, que é Deus, e formam um só depósito da Palavra, confiado à Igreja (Dei Verbum, 9-10). Foi a Tradição que, desde os apóstolos, transmitiu quais livros eram inspirados. A Bíblia, por sua vez, é a norma da fé e a fonte da qual a Igreja vive.

Não se trata de colocar a Tradição contra a Bíblia, mas de ver que as duas se ajudam. A Igreja nasceu antes de o Novo Testamento ser concluído, e é dentro dela que os livros foram escritos, lidos e guardados.

Um livro que nasceu dentro da Igreja

A resposta à pergunta “quem escolheu os livros da Bíblia?” é que ninguém os escolheu “por conta própria”. Deus inspirou os autores, e a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, reconheceu esses livros e os guardou com fidelidade ao longo dos séculos.

Por isso, ler a Bíblia como católico é ler a Palavra de Deus em casa, junto com a Igreja que a recebeu, protegeu e a transmite até hoje. Como diz o Catecismo, “a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor” (CIC 103, citando Dei Verbum, 21).

Fontes sugeridas:

  • Bíblia Sagrada: Lucas 24,44; João 16,13 e 21,25; 1 Timóteo 3,15 e 5,18; 2 Tessalonicenses 2,15; 2 Pedro 3,15-16; Hebreus 11,35; 2 Macabeus 7
  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 82, 103, 105-108 e 120
  • Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Dei Verbum, nn. 9-11 e 21
  • Concílio de Trento, Sessão IV (Decreto sobre os livros sagrados), 1546
  • Santo Atanásio de Alexandria, Carta Festal 39 (367)
  • Santo Ireneu de Lyon, Contra as Heresias, III, 11, 8
  • Santo Agostinho, Contra a Carta de Mani chamada Fundamental, 5, 6
  • Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, III, 25
  • Sínodos de Hipona (393) e Cartago (397 e 419)
  • Papa Inocêncio I, Carta a Exupério de Toulouse (405)
  • Fragmento Muratoriano (séculos II-III)

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