Pedro, a Rocha: Cristo fundou uma Igreja com cabeça visível
Quando Jesus disse a Simão que sobre ele edificaria a sua Igreja, estava criando uma liderança concreta? A Bíblia e os primeiros cristãos respondem com uma clareza que surpreende.
A pergunta que muita gente faz
Se Cristo é a cabeça da Igreja, por que os católicos falam de um papa? Não bastaria seguir Jesus e a Bíblia, sem ninguém no meio? A pergunta é honesta e merece uma resposta honesta. Muita gente cresceu ouvindo que o papado foi invenção de séculos depois. Vamos ver o que o próprio Evangelho conta e o que os cristãos dos primeiros tempos viveram.
O que a Igreja ensina
A Igreja ensina que Jesus Cristo é a cabeça invisível da sua Igreja e que ele mesmo escolheu Pedro para ser o sinal visível da unidade entre os cristãos. O papa é o sucessor de Pedro e bispo de Roma. Ele não toma o lugar de Cristo. Serve em nome dele, como um pastor que cuida das ovelhas de outro dono (Catecismo, 881 e 882).
O que diz a Bíblia
Tudo começa em Cesareia de Filipe, no Evangelho de Mateus (16,13 a 20). Jesus pergunta aos discípulos quem as pessoas dizem que ele é, e depois pergunta o que eles mesmos pensam. Simão responde que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo. Então Jesus lhe dá um nome novo. A língua que Jesus falava era o aramaico, e nela a palavra para rocha é Kefa. Em português, a frase soa assim: “Tu és Rocha, e sobre esta rocha edificarei a minha Igreja”. O evangelista João já tinha avisado que Simão seria chamado de Cefas (João 1,42). Na Bíblia, nome novo significa missão nova, como aconteceu com Abrão, que virou Abraão. E ninguém, antes de Pedro, tinha sido chamado de Rocha.
Jesus continua: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus”. Quem ouvia isso conhecia a imagem. No livro de Isaías (22,19 a 22), o rei de Davi entrega a chave da casa a Eliaquim, o mordomo do palácio. Era um cargo de verdade, com autoridade, que passava de um ocupante para o seguinte. Jesus usa essa figura para falar de Pedro.
Na noite anterior à Paixão, Jesus diz a Pedro que rezou por ele, para que a sua fé não desfaleça, e pede que ele confirme os irmãos (Lucas 22,31 e 32). Depois da Ressurreição, pergunta três vezes se Pedro o ama e três vezes repete a mesma ordem: “Apascenta as minhas ovelhas” (João 21,15 a 17). Repare que as ovelhas continuam sendo de Jesus. Pedro apenas cuida delas.
Nos Atos dos Apóstolos, Pedro age como líder desde o início. Ele conduz a escolha do substituto de Judas (1,15 a 26), fala à multidão no Pentecostes (2,14) e, no concílio de Jerusalém, depois de muita discussão, é a palavra dele que acalma a assembleia (15,7 a 12). O próprio Paulo, que não era de pedir licença, subiu a Jerusalém para conhecer Cefas (Gálatas 1,18).
“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.”
(itálico) Evangelho de Mateus 16,18
O que os primeiros cristãos viviam
Segundo a tradição, Pedro foi para Roma e ali morreu mártir, no tempo do imperador Nero, por volta do ano 64 ou 67. Os cristãos de Roma guardaram o lugar do túmulo, sobre o qual hoje está a Basílica de São Pedro.
Por volta do ano 96, a comunidade de Corinto estava dividida. Quem escreveu para colocar ordem foi Clemente, bispo de Roma, numa época em que o apóstolo João, segundo a tradição, ainda vivia em Éfeso. Perto do ano 110, Santo Inácio de Antioquia saudou a Igreja de Roma como a que “preside na caridade”. Por volta de 180, Santo Irineu de Lyon listou os bispos de Roma, um por um, a partir de Pedro, para mostrar onde a fé dos apóstolos tinha sido guardada.
Santo Agostinho, de quem já falamos aqui no site, fez o mesmo contra os donatistas. Citou a sequência dos bispos de Roma, começando por Pedro, para mostrar onde estava a Igreja verdadeira.
As objeções mais comuns
- “A pedra é Cristo, ou a fé de Pedro, mas não Pedro.” A Igreja nunca negou que Cristo é a pedra angular (Efésios 2,20). Acontece que a Bíblia dá o mesmo título a pessoas diferentes sem criar disputa. Jesus é o Bom Pastor e, mesmo assim, manda Pedro pastorear. Quanto ao grego, que usa duas palavras parecidas, o motivo é simples: nome de homem precisa ser masculino. No aramaico de Jesus, a palavra é uma só.
- “Pedro errou, negou Jesus e até foi corrigido por Paulo.” É verdade, e a Bíblia conta tudo sem esconder (Gálatas 2,11). Mas infalibilidade não quer dizer perfeição. A Igreja ensina que o papa é preservado do erro apenas quando define, de modo solene e como pastor de todos, uma verdade de fé ou de moral (Catecismo, 891). Em Gálatas, Paulo corrige a conduta de Pedro, e não o ensino dele.
- “A palavra papa não aparece na Bíblia.” Também não aparece a palavra Trindade, e os cristãos acreditam nela. O que importa é a realidade: Cristo escolheu um pastor para as suas ovelhas, e a Igreja sempre soube disso.
O que isso muda na sua vida
Em dois mil anos, mais de duzentos e sessenta papas se sucederam, e a lista chega até o papa de hoje. Isso dá uma segurança rara. A fé que você recebeu não foi inventada por alguém do nosso tempo, e ninguém precisa decidir sozinho em quem acreditar. Quando o mundo muda de opinião a cada década, a Igreja continua guardando o que recebeu. Vale também rezar pelo papa, porque Jesus rezou por Pedro antes de qualquer um. E se alguém perto de você faz esta pergunta, responda com calma, do jeito que foi respondida aqui.
O que isso nos ensina
Jesus não deixou a sua Igreja sem pastor. Escolheu um pescador, que errou, negou, chorou e foi perdoado, e entregou as ovelhas nas mãos dele. Essa escolha já diz muito sobre como Deus trabalha.
Para nós, que seguimos a devoção à Divina Misericórdia, a história de Pedro é um retrato dessa misericórdia. Antes de ouvir “apascenta as minhas ovelhas”, Pedro ouviu três vezes a pergunta “tu me amas?”. A autoridade na Igreja nasceu de um perdão. Deus não escolhe quem nunca falha. Escolhe quem volta.
Fontes sugeridas:
- BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
- CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1993. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/prima-pagina-cic_po.html
- CLEMENTE ROMANO. Carta aos Coríntios. In: PADRES APOSTÓLICOS. São Paulo: Paulus, 1995. (Coleção Patrística, 1).
- CONCÍLIO VATICANO I. Constituição dogmática Pastor Aeternus sobre a Igreja de Cristo. Roma, 1870.
- IRINEU DE LIÃO. Contra as heresias. Livro III. São Paulo: Paulus, 1995. (Coleção Patrística, 4).
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