Pedir a Intercessão dos Santos é Bíblico?
Rezar ‘a’ alguém é diferente de rezar ‘por’ alguém. Descubra por que pedir a oração dos santos é bíblico e não diminui Jesus.
"Por que os católicos rezam para os santos? Isso não é pedir ajuda a quem já morreu? Só Jesus não basta?" Essas perguntas são muito comuns, e merecem uma resposta clara, bíblica e sem rodeios. Vamos por partes.
Primeiro: o que a Igreja realmente ensina?
A Igreja Católica não ensina que os santos tenham poder próprio, nem que eles substituam Jesus. Ela ensina que os santos são irmãos nossos que já chegaram ao Céu e continuam unidos a nós em Cristo. Assim como você pede a um amigo ou a um parente: "reze por mim", o católico pede aos santos que rezem por ele a Deus.
Por isso, o correto é dizer que pedimos a intercessão dos santos, isto é, pedimos que eles intercedam (rezem em nosso favor) junto de Deus. Quem concede a graça é sempre Deus.
"Não deixam de interceder por nós diante do Pai." (Catecismo da Igreja Católica, n. 956)
Pedir oração aos outros é bíblico
A Bíblia está cheia de pessoas pedindo orações umas às outras e de Deus atendendo por causa da intercessão de seus amigos:
- Tiago 5,16: "A oração fervorosa do justo tem grande poder." Se a oração de um justo vale muito, a de quem já está diante de Deus vale ainda mais.
- Romanos 15,30: São Paulo pede aos cristãos de Roma: "peço-vos que lutem comigo nas orações a Deus por mim".
- Jó 42,8: Deus manda os amigos de Jó pedirem a ele que reze por eles, e promete atender "por consideração a ele".
- Êxodo 32,11-14: Deus escuta Moisés, que intercede pelo povo.
Ninguém acha que Paulo estava "tirando o lugar de Jesus" ao pedir oração. A intercessão é uma forma de amor e de comunhão.
"Mas existe um só Mediador" (1 Timóteo 2,5)
Essa é a objeção mais comum. O texto diz: "Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus". E é verdade! Jesus é o único mediador da salvação: só ele nos reconciliou com o Pai, pela cruz.
Mas olhe o contexto. Poucos versículos antes, no mesmo capítulo, Paulo escreve: "Recomendo, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens" (1Tm 2,1). O próprio Paulo manda que os cristãos intercedam uns pelos outros, e na mesma passagem fala do único mediador. Ou seja, para ele, as duas coisas não se contradizem.
A mediação de Cristo é única, mas não é solitária. Jesus quis associar seu Corpo, a Igreja, à sua obra. O Concílio Vaticano II explica que a intercessão dos santos não diminui a mediação de Cristo, mas mostra sua riqueza (Lumen Gentium, nn. 49 e 62).
Os que morreram em Cristo estão vivos
Outra dúvida: "Os mortos não ouvem". Mas Jesus ensinou o contrário: "Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, porque para ele todos vivem" (Lucas 20,38; cf. Mateus 22,32).
Na Transfiguração, Moisés e Elias aparecem conversando com Jesus (Mateus 17,3). E São Paulo ensina que nem a morte nos separa do amor de Cristo (Romanos 8,38-39). A morte não rompe a Comunhão dos Santos. Ela a aprofunda, porque quem está no Céu está plenamente unido a Cristo, que é a Cabeça de todo o Corpo.
A Carta aos Hebreus fala desses irmãos como uma "nuvem de testemunhas" que nos rodeia (Hebreus 12,1) e diz que nos aproximamos "da assembleia dos primogênitos cujos nomes estão escritos nos céus" e "dos espíritos dos justos que chegaram à perfeição" (Hebreus 12,22-24). Estamos ligados a eles.
A Bíblia mostra os santos rezando no Céu
- Apocalipse 5,8: os vinte e quatro anciãos apresentam a Deus "taças de ouro cheias de perfumes, que são as orações dos santos".
- Apocalipse 6,9-10: os mártires clamam a Deus no Céu, em favor da justiça na terra.
- Apocalipse 8,3-4: a fumaça do incenso sobe com as orações dos santos diante de Deus.
- Jeremias 15,1 e 2 Macabeus 15,12-14: Moisés, Samuel e o profeta Jeremias aparecem como intercessores mesmo depois de mortos. Atenção: o livro de 2 Macabeus faz parte da Bíblia católica, mas não consta nas Bíblias protestantes.
Se os santos no Céu rezam, é natural que possamos pedir a eles que rezem também por nós.
"Isso não é falar com os mortos?" (Deuteronômio 18,11)
A Bíblia proíbe o espiritismo e a necromancia: tentar invocar os mortos para saber o futuro ou obter poderes escondidos (Dt 18,10-12). Isso é muito diferente de pedir a um irmão em Cristo, que está com Deus, que reze por nós.
O católico não "chama espíritos" nem busca revelações. Ele reza à Santíssima Trindade e, em comunhão, pede ajuda aos amigos de Deus, como faria com um irmão da comunidade.
Isso é adoração? Não!
A Igreja faz uma distinção importante:
- Latria (adoração): devida somente a Deus.
- Dulia (veneração): respeito e honra aos santos, por causa de Deus que age neles.
- Hiperdulia: veneração especial à Virgem Maria, por ser a Mãe de Deus.
O Catecismo é claro: a oração cristã se dirige principalmente ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo, e a intercessão dos santos também (CIC nn. 2683-2684). O Concílio de Trento já havia ensinado que os santos que reinam com Cristo oferecem suas orações a Deus pelos homens (Sessão XXV).
Um ensinamento antigo na Igreja
Essa fé não nasceu na Idade Média. Nas catacumbas de Roma, ainda nos primeiros séculos, há inscrições pedindo a oração dos irmãos falecidos. São Cirilo de Jerusalém (século IV) explica, em suas catequeses, que a Igreja lembra na Missa dos que já partiram, acreditando que isso os ajuda. Santo Agostinho ensinava que o cristão que morreu continua a rezar pelos que estão na terra. Esse ensino é parte da fé cristã desde a origem.
Uma comparação simples
Pense numa grande família. Se você precisa de ajuda, pode falar direto com o pai. Mas também pode pedir ao irmão mais velho: "Fala com o pai por mim?". Ninguém acha que o irmão está tomando o lugar do pai. Pelo contrário: o pai fica feliz de ver os filhos unidos, se ajudando.
O mesmo vale para Deus. Ele não precisa de intermediários, mas gosta de nos envolver uns com os outros. Pedir a oração de um santo é fazer parte dessa família.
Nunca rezamos sozinhos: somos uma só família em Cristo
Pedir a intercessão dos santos é bíblico: baseia-se na oração de intercessão que a Bíblia ensina, na vida dos que morreram em Cristo e na comunhão de todo o Corpo de Cristo, na terra e no Céu. Não diminui Jesus, o único Mediador. Ao contrário, mostra como seu amor nos une a todos.
Peça a oração dos santos, mas lembre-se sempre: o centro da nossa fé e a fonte de toda graça é Jesus Cristo.
Fontes sugeridas:
- 1 Timóteo 2,5
- Tiago 5,16
- Apocalipse 5,8 e 6,10
- Lucas 20,38
- Catecismo da Igreja Católica, nn. 956 e 2683-2684
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