A Ressurreição de Cristo foi real?
Jesus ressuscitou de verdade? Veja as evidências históricas, as respostas às objeções mais comuns e o que a Igreja Católica ensina sobre a Ressurreição.
Em algum momento da vida, quase todo cristão ouve a pergunta, às vezes de um amigo, às vezes de si mesmo, tarde da noite: e se não aconteceu? E se a Ressurreição for só uma história bonita que os discípulos contaram para dar sentido à morte do mestre?
A Igreja nunca fugiu dessa pergunta. São Paulo a fez de frente, no ano 55 ou por aí, numa carta aos cristãos de Corinto: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também a vossa fé” (1Cor 15,14). Nenhum apóstolo tentou amenizar. A fé cristã aposta tudo nisso. Ou aconteceu, ou o cristianismo não vale a pena.
O que a Igreja quer dizer com “ressurreição”
Antes de olhar as evidências, convém esclarecer o que está sendo afirmado, porque muita confusão nasce aqui. A Ressurreição de Jesus não foi a volta de um morto à vida de antes, como aconteceu com Lázaro, que ressuscitou para morrer de novo mais tarde. O Catecismo da Igreja Católica explica que Cristo ressuscitado entrou numa vida nova, glorificada, que já não está sujeita à morte (CIC 646). O corpo é o mesmo, com as marcas dos cravos, mas transformado, e por isso os discípulos às vezes demoravam a reconhecê-lo (Lc 24,16; Jo 20,14; 21,4).
O Catecismo chama a Ressurreição de verdade culminante da nossa fé em Cristo (CIC 638). E faz uma observação importante: ninguém viu o momento exato em que ela aconteceu, e os Evangelhos não o descrevem (CIC 647). O que os Apóstolos viram foram os sinais: o túmulo vazio e o próprio Cristo vivo diante deles.
O testemunho mais antigo
Muita gente imagina que a Ressurreição foi uma lenda que cresceu devagar, ao longo de gerações. Os textos dizem o contrário.
O trecho mais antigo que temos está justamente numa carta de Paulo, escrita bem antes dos Evangelhos. Ali ele recorda o que ensinou aos coríntios, e diz que transmitiu o que ele mesmo recebeu:
“Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado; ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e apareceu a Cefas, depois aos Doze.”
1 Coríntios 15,3-5
Paulo continua a lista: Jesus apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria ainda vivia quando ele escrevia, depois a Tiago, depois a todos os Apóstolos, e por último ao próprio Paulo (1Cor 15,6-8). É uma maneira de dizer: se duvidam, perguntem a eles.
O detalhe que pesa é que Paulo diz ter “recebido” esse anúncio. Ele se converteu poucos anos depois da morte de Jesus e, segundo conta aos gálatas, foi a Jerusalém conhecer Pedro e ficou com ele quinze dias, e viu também Tiago (Gl 1,18-19). A fórmula que repete era, portanto, anterior a ele, e remonta aos primeiros anos da comunidade. Não houve tempo para a lenda se formar.
O túmulo vazio
Todos os quatro Evangelhos concordam num ponto: no domingo de manhã, o túmulo estava vazio (Mt 28; Mc 16; Lc 24; Jo 20). E contam quem foi a primeira a descobrir: mulheres, entre elas Maria Madalena.
Esse detalhe é mais forte do que parece. Na sociedade judaica do século I, o testemunho de uma mulher tinha pouco peso nos tribunais. Se os Apóstolos estivessem inventando uma história para convencer os outros, dificilmente escolheriam mulheres como primeiras testemunhas. O Catecismo observa que elas foram as primeiras a anunciar a Ressurreição aos próprios Apóstolos (CIC 641 e 642), e os homens, aliás, não acreditaram logo. Lucas diz que as palavras delas lhes pareceram delírio (Lc 24,11).
Há uma pista ainda mais curiosa no Evangelho de Mateus. Ele conta que os chefes dos sacerdotes subornaram os guardas para dizer que os discípulos tinham roubado o corpo enquanto dormiam, e acrescenta que essa versão corria entre os judeus “até hoje” (Mt 28,11-15). Repare o que isso revela. Os adversários de Jesus não disseram que o túmulo estava cheio. Tinham de explicar por que estava vazio. A discussão era sobre o motivo, e não sobre o fato.
As aparições
O túmulo vazio, sozinho, poderia ser lido de vários modos. Maria Madalena mesmo pensou que alguém tivesse levado o corpo (Jo 20,2). O que muda tudo são os encontros.
Os Evangelhos e Paulo falam de Cristo ressuscitado aparecendo a pessoas diferentes, em lugares diferentes e em momentos diferentes. A Madalena, junto ao sepulcro. Os dois discípulos a caminho de Emaús. Pedro. Os Doze reunidos a portas fechadas. Os discípulos à beira do lago, que o viram preparar peixe na brasa (Jo 21,9-13). Mais de quinhentos, segundo Paulo. E em duas dessas ocasiões o Evangelho insiste num detalhe: ele comeu diante deles, para mostrar que não era um fantasma (Lc 24,36-43).
Dois casos chamam atenção. O primeiro é Tomé, que se recusou a acreditar no testemunho dos amigos e exigiu ver e tocar as feridas (Jo 20,24-29). Não era um homem ansioso por crer. O segundo é Tiago, o chamado irmão do Senhor, que durante a vida pública de Jesus, segundo João, não acreditava nele (Jo 7,5), mas aparece depois como figura de destaque na comunidade de Jerusalém. Paulo diz que Jesus lhe apareceu (1Cor 15,7). E o próprio Paulo, que perseguia os cristãos, virou o maior dos pregadores. Gente que não estava esperando nada e mudou de vida.
A transformação dos discípulos
Uma das coisas mais difíceis de explicar sem a Ressurreição é o que aconteceu com os Apóstolos. Na noite da prisão de Jesus, todos fugiram. Pedro negou conhecê-lo três vezes. Os outros se trancaram com medo (Jo 20,19). Para qualquer observador, o movimento tinha acabado.
Semanas depois, esses mesmos homens estavam em Jerusalém, na cidade onde Jesus tinha sido executado, anunciando em público que ele estava vivo, mesmo sob ameaça de prisão e morte. O livro dos Atos registra a execução de Tiago, irmão de João, por ordem de Herodes (At 12,2), e a tradição antiga conta que Pedro e Paulo foram martirizados em Roma, o que o papa Clemente confirma em sua carta aos coríntios, por volta do ano 96 (1Clemente 5).
Claro, muita gente morre por aquilo em que acredita, e isso, sozinho, não prova que a crença é verdadeira. Mas há uma diferença entre morrer por uma ideia e morrer por um fato que se afirma ter presenciado. Os discípulos não defendiam uma filosofia. Diziam: nós o vimos. Se soubessem que era mentira, dificilmente teriam suportado o que suportaram por ela.
As explicações alternativas
Vale examinar com honestidade as teorias que tentam explicar tudo sem a Ressurreição.
“Os discípulos roubaram o corpo.” É a explicação mais antiga, a que Mateus já registra. Mas pede que aqueles homens, os mesmos que fugiram de medo, tenham enfrentado uma guarda e inventado uma mentira pela qual depois aceitariam ser perseguidos.
“Jesus não morreu de verdade, apenas desmaiou.” A crucifixão romana era um método de execução eficiente, aplicado por soldados treinados, e João conta que um deles perfurou o lado de Jesus e saiu sangue e água (Jo 19,34). Um homem ferido, torturado e semimorto, saindo do túmulo, dificilmente teria convencido os discípulos de que estavam diante do vencedor da morte. O próprio historiador romano Tácito, no início do século II, registra que Cristo foi executado sob Pôncio Pilatos no reinado de Tibério (Anais, 15,44).
“Foram alucinações.” É a teoria mais comum hoje. Mas alucinações são experiências individuais, que variam de pessoa a pessoa, e dificilmente se repetem de forma idêntica em grupos, em lugares e em momentos diferentes. Também não explicam o túmulo vazio, e não explicam por que o corpo de Jesus nunca foi apresentado pelos adversários.
“Foi uma lenda que cresceu com o tempo.” Já vimos que o testemunho de Paulo é muito antigo. Além disso, as primeiras pessoas que ouviram a pregação em Jerusalém poderiam ir ao túmulo conferir, e nada indica que alguém o tenha feito para desmentir.
Nenhuma dessas teorias é impossível de sustentar, e quem as defende costuma ser sincero. Mas cada uma, para se manter de pé, precisa de mais coisas para dar certo do que a explicação simples dos próprios testemunhas.
História e fé
Seria honesto dizer que a Ressurreição se prova como um teorema de matemática? Não. A Igreja nunca disse isso. O Catecismo afirma que a Ressurreição é um acontecimento histórico, atestado pelo sinal do sepulcro vazio e pelos encontros dos Apóstolos com o Cristo ressuscitado. Mas acrescenta que, por ser a entrada da humanidade de Cristo na glória de Deus, ela também ultrapassa a história e permanece no centro do mistério da fé (CIC 647).
Isso significa que as evidências ajudam a razão a ver que a fé é razoável, mas não substituem a fé. O encontro com o Cristo vivo continua pedindo um passo de confiança. O próprio Jesus disse a Tomé: “Felizes os que creram sem ter visto” (Jo 20,29). E é essa fé que a Igreja vive e celebra, sobretudo na Missa e na Vigília Pascal.
O que isso muda
Se a Ressurreição é real, a morte não tem a última palavra. Paulo chama Cristo de “primícias dos que morreram” (1Cor 15,20), ou seja, o primeiro fruto de uma colheita que ainda virá. O Catecismo ensina que a Ressurreição é a fonte da nossa esperança: nela, Cristo abre o caminho para a nossa própria ressurreição (CIC 655), e a Igreja professa, no Credo, a fé na ressurreição da carne (CIC 988).
Para quem enfrenta o luto, o medo da própria morte ou a doença de alguém querido, essa não é uma questão acadêmica. Nas nossas pequenas mortes de cada dia, a fé na Ressurreição diz que há saída, que o fracasso e a dor não são o fim da história.
E há um efeito mais cotidiano. A Igreja se reúne no domingo, e não no sábado como os judeus, justamente porque é o dia em que Cristo ressuscitou. Cada Missa dominical é, em certo sentido, uma Páscoa semanal. Quem vai à Missa todo domingo, de algum modo, volta ao túmulo vazio e encontra de novo o Senhor.
Fontes sugeridas:
- Catecismo da Igreja Católica, nn. 638 a 658 (a Ressurreição de Cristo) e nn. 988 a 1004 (a ressurreição da carne)
- São João Paulo II, audiências gerais de 1988 sobre a Ressurreição (ciclo de catequeses sobre o Credo)
- Bento XVI, Jesus de Nazaré, volume 2 (Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição), capítulo 9
- São Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, questões 53 a 56
- São Clemente Romano, Carta aos Coríntios, caps. 5 e 42
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